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Tratamentos

Tratamento preventivo

Para a realização de um tratamento eficaz e com aderência do paciente, é fundamental que sejam fornecidas orientações claras sobre as causas e os mecanismos da dor e da doença enxaqueca, assim como o fato de que as crises de dor de cabeça podem ser deflagradas por fatores variados e comuns na vida de qualquer pessoa. Isso porque a simples prescrição de medicamentos preventivos, geralmente drogas consideradas “fortes” pelo paciente e combinadas com drogas para outras doenças, sem que ele entenda o porquê da ocorrência de cefaleias tão desconfortáveis e incapacitantes, é sinônimo de insucesso e peregrinações por diversos profissionais.

O tratamento farmacológico da enxaqueca divide-se em preventivo e agudo.  O tratamento preventivo deve ser realizado quando há mais de duas crises de dor de cabeça forte e/ou com duração prolongada por mês ou quando, a despeito da frequência, a intensidade dos ataques é devastadora e absolutamente impeditiva de quaisquer atividades. Atualmente, um novo conceito de que a enxaqueca é uma doença progressiva, que pode ser associada a uma maior incidência de infartos cerebrais, razão pela qual os pacientes devem ser tratados preventivamente mesmo com baixa freqüência de crises, vem ganhando mais respaldo na comunidade científica.

Várias classes de drogas podem ser usadas (tabela 5). Independentemente da medicação escolhida, todos os tratamentos devem ser iniciados em doses baixas, com preferência pela monoterapia (apenas uma droga) nos casos mais simples e virgens de tratamento. Além disso, as doses devem ser mantidas por dois a três meses para se avaliar a sua eficácia. Os pacientes devem entender claramente que não se pode esperar benefícios antes desse período de tempo, embora alguns melhorem antes disso.

Entre as várias drogas usadas, os β bloqueadores são utilizados há mais de 25 anos e ainda representam uma das primeiras escolhas de tratamento para os pacientes não asmáticos. São drogas originariamente usadas para pressão alta e para doenças do coração, mas isso nada tem a ver com seu efeito na enxaqueca. Deve ser enfatizado que as doses necessárias para a prevenção da migrânea são inferiores àquelas para doenças cardiovasculares e, portanto, a tolerabilidade é melhor na maioria dos casos e os efeitos colaterais são bem menos comuns.

A metisergida é considerada a droga mais antiga prescrita especificamente para a profilaxia das crises de enxaqueca, com eficácia alta, em torno de 60 a 70%. Os derivados da ergotamina não são drogas usadas com frequência nos dias de hoje, reservando-se para os casos refratários e resistentes e para a profilaxia em curto prazo, por apenas alguns dias, como na migrânea menstrual. As complicações do uso da metisergida realmente existem, mas sugere-se hoje que sejam devidas a reações individuais do paciente e não relacionadas à dose nem ao tempo de uso. No entanto, a maioria dos médicos não conhece bem a farmacologia das drogas que prescreve e continua propagando os efeitos colaterais e não os benefícios claros da metisergida.

Os antagonistas da serotonina, pizotifeno e ciproheptadina são os componentes deste grupo de fármacos que revelam eficácia na prevenção da enxaqueca. As drogas pertencentes a este grupo parecem exercer os seus efeitos em receptores centrais da serotonina. Os efeitos colaterais mais comuns são a sedação e a sonolência intensas, além de ganho de peso nas doses plenas recomendadas.  No entanto, quando usadas em associação com outras classes de drogas, podem ser empregadas doses menores e por isso são mais bem toleradas pelos pacientes.

Os antidepressivos: Os derivados tricíclicos amitriptilina e nortriptilina são os antidepressivos mais utilizados na prevenção da migrânea e, nesse caso, seu uso nada tem a ver com a depressão. As doses devem ser iniciadas sempre baixas com gradual aumento a cada 5-7 dias e os efeitos colaterais mais observados são síndrome vertiginosa, aumento do apetite, ganho de peso, sonolência, boca seca e constipação intestinal. No entanto, como as doses necessárias à profilaxia da enxaqueca são, em geral, bem inferiores às doses antidepressivas, esses fármacos são bem tolerados, principalmente se iniciados lenta e gradualmente.

Os antagonistas ou bloqueadores dos canais de cálcio: Os componentes deste grupo de fármacos apresentam estruturas químicas variadas e diferem em eficácia clínica, efeitos colaterais e contra-indicações. A flunarizina é o mais usado no Brasil e age basicamente reduzindo a freqüência dos ataques. Embora essa substância seja preconizada na dose de 10mg/dia, recomenda-se sua utilização em dose única de 3 a 5 mg/dia à noite, obtendo-se a mesma eficiência, mas sem os indesejáveis efeitos colaterais de ganho de peso, sonolência e tremor.

Os anticonvulsivantes: Nos últimos anos, tem sido dirigida atenção especial a esse grupo de drogas para a prevenção da migrânea. Assim como no caso dos antidepressivos, o seu uso na prevenção das crises de enxaqueca nada tem a ver com o paciente ter ou não epilepsia ou convulsões. Isso precisa ficar bem claro, pois os pacientes frequentemente consultam a bula do remédio e ficam com a ideia incorreta de que o remédio é “forte” ou que o médico imaginou que eles tivessem epilepsia, convulsões e outro problema mais sério em vez da enxaqueca. Deve ficar claro, portanto, que o uso destas drogas é justificado e muito eficaz, uma vez que alguns dos mecanismos cerebrais envolvidos na enxaqueca são similares aos da epilepsia, razão pela qual é possível usar em uma doença as drogas para a outra e vice-versa.

O topiramato é uma das mais novas aquisições do arsenal para prevenção da enxaqueca. Ele apresenta inédito mecanismo de ação quádruplo, atuando nos canais de sódio e cálcio, nos receptores glutamatérgicos kaianato/AMPA e aumentando a atividade GABAérgica, ao atuar nos receptores GABAA . Esse neuromodulador vem sendo sugerido para o tratamento preventivo da migrânea desde o final da década de 90. Dois estudos com um grande número de pacientes foram decisivos para corroborar o que vinha sendo observado na prática clínica. A posologia do topiramato, assim como a do divalproato de sódio, é de duas doses diárias. Como ele é inibidor da anidrase carbônica, pode provocar dormência em dedos das mãos e dos pés, sendo necessário aumentar a ingestão de líquidos para evitar e combater esse efeito. Dentre todas as drogas existentes para a profilaxia da enxaqueca, esta é a única que promove perda de peso, da ordem de 1 a 3 kg por mês, sendo uma opção interessante para aqueles que se preocupam com esse aspecto.

Miscelânea: Nesse grupo de drogas estão várias substâncias de estrutura farmacológica diferente, como a tizanidina, o feverfew, a riboflavina e o magnésio. A tabela 5 mostra as drogas mais usadas para a profilaxia da migrânea, sua eficácia e perfil de efeitos colaterais.

Tratamento das crises

As drogas existentes para o tratamento das crises de enxaqueca são divididas em específicas e não específicas. Entre as específicas, os triptanos são antagonistas seletivos dos receptores serotoninérgicos 5-HT1B/1D, e existe bom suporte científico atestando a sua eficácia e segurança.

A tabela 6 resume as opções de drogas disponíveis e consideradas eficazes para o tratamento agudo da enxaqueca.

Tabela 6

Droga

Doses disponíveis (em mg)

Doses recomendadas por 24h / formulações

Nomes Comerciais

Compostos não específicos

Analgésicos simples

Paracetamol

500 / 750

2-6 comprimidos

Tylenol

Antiinflamatórios não esteroidais

Derivados salicilatos

500

2-6 comprimidos

Aspirina

Naproxeno sódico

550/1100

1-2 comprimidos/supositórios

Flanax

Clonixinato de lisina

250 – 375

2-3 comprimidos

Dolamin

Diclofenaco

50-100

1-2 comprimidos / supositórios

Voltaren

Ibuprofeno

200-600

1-3 comprimidos até 2x ao dia

Dalsy

Meloxican

15-30

1-2 compridos

Inicox

Ketorolac

30-60

3 comprimidos / 1 ampola

Deocil

Indometacina

50-100

1 comprimido / 1 supositório

Indocid

Ketoprofeno

100

1-2 supositórios

 

 

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